Como os subsídios municipais em moedas sociais fortalecem economias locais

Cidades de diferentes estados estão inovando ao pagar benefícios sociais em moedas locais, fortalecendo o comércio, o emprego e a renda dentro de seus próprios territórios.

1. A economia do balde furado

Segundo a PNAD/IBGE, Pernambuco ocupa a 5ª posição entre os estados com maior índice de pobreza do país.

Este problema é ainda pior quando falamos de comunidades e territórios pequenos. Como exemplo, dados mostraram que Araçoiaba tem um dos piores índices de PIB per capita do estado (Agência CONDEPE/FIDEM, 2021) e 52,7% da população vive abaixo da linha de extrema pobreza (Secretaria Executiva de Assistência Social – SEASS, 2021). A cidade carece de agências bancárias, e muitos trabalhadores de Araçoiaba vão para cidades vizinhas para sacar dinheiro e acabam gastando em outros territórios, deixando a cidade empobrecida.

Em boa parte dos municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte, há um fenômeno silencioso que dificulta o desenvolvimento econômico: a evasão de riqueza local.

Mesmo quando há geração de renda por meio de salários públicos, programas sociais ou comércio, boa parte do dinheiro acaba sendo gasto fora do território. É o que alguns economistas chamam de “economia do balde furado”: a riqueza entra, mas logo escorre pelos furos do consumo externo.

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Sergipe (UFS) em 2017 identificou que menos de 20% da folha de pagamento da Prefeitura de Indiaroba, que possui pouco mais de 16 mil habitantes, ficavam no município. Dos 4 milhões de reais destinados à população, apenas 800 mil não foram evadidos para outras regiões. Segundo o prefeito de Indiaroba, mesmo com uma folha de pagamento atual avaliada em 6 milhões mensais, este cenário se agrava pois o e-commerce já está muito presente no cotidiano (Portal da Câmara dos Deputados, 2023).

 Segundo dados do relatório do Banco Central, 41% dos pagamentos do brasileiro são feitos por cartões de crédito ou débito, que cobram entre 2% a 8% de transação. O PIB de Pernambuco em 2023 foi de 254 Bilhões de reais, são bilhões de reais foram gastos somente em taxas de cartão, esvaindo dinheiro da economia local. Ainda, o imposto de ISS cobrado por estes serviços não fica em Pernambuco, e sim para São Paulo.

Esses números reforçam a necessidade de desenvolver estratégias para aumentar a circulação de dinheiro local e reduzir a evasão para outros estados e países, promovendo maior retenção de riqueza dentro da cidade.

Portanto mesmo que haja aumento de emprego em uma região, se as pessoas não utilizam o dinheiro no território, é como um balde furado, a riqueza está sendo gerada (água entrando) mas não está evoluindo a economia local pois ela não está sendo retida no município (água escorre para outro lugar).

2. As moedas sociais como solução

Uma das estratégias que vêm ganhando força no Brasil e no mundo para enfrentar essa perda de riqueza é o uso das moedas sociais, ou moedas locais.

Elas funcionam como um meio de pagamento complementar ao Real, válido apenas dentro de um território específico, como um bairro, distrito ou município.

Dessa forma, cada moeda gasta permanece circulando dentro da comunidade, impulsionando o comércio local, o emprego e a arrecadação.

A moeda social não substitui o dinheiro nacional. Cada unidade emitida é lastreada em Real, ou seja, a cada 1 moeda social em circulação, existe 1 real depositado em uma conta reserva em banco tradicional. O que muda é onde o dinheiro circula e o impacto que essa circulação tem na economia local.

3. Resultados das moedas sociais no mundo e no Brasil

O uso de moedas sociais ou locais não é novo, e há décadas demonstra impactos positivos em diferentes contextos econômicos. Para mostrar como as moedas locais podem impactar a renda e trabalho ao reter a riqueza de um local, seguem algumas evidências científicas e históricas do impacto positivo  das moedas no Brasil e no mundo:

Woergl: Após a 1ª guerra mundial a Áustria se via em uma grande crise econômica. Na pequena vila de Woergl viviam 4 mil habitantes, onde enfrentavam um desemprego de 30%. Foi quando o prefeito do município instituiu os Schillings, uma moeda local que só seria utilizado na vila, e poderia ser convertida para a moeda nacional pagando-se uma taxa de 5%. Como resultado, a moeda local circulou 10 vezes mais rápido na vila do que a moeda nacional, gerando muito mais atividade econômica, e portanto mais arrecadação de impostos e emprego. Enquanto em toda a Áustria aumentava o desemprego em 19%, em Woergl o desemprego diminuía em 16%. Além disso, foi possível desenvolver a infraestrutura pública da cidade a partir das arrecadações municipais. Tudo isso em apenas 13 meses de circulação, o que foi conhecido como “O milagre de Woergl”. (Unterguggenberger Institut, 2018).

Prien: Na pequena cidade de Prien, na Alemanha, foi instituído a moeda Chiemgauer em 2003. A moeda tem uma velocidade de circulação 4x mais rápida que o euro, e isso contribuiu para que houvesse uma redução em 62% no desemprego na cidade. A moeda é utilizada até hoje, comprovando a sua sustentabilidade e impacto ao longo do tempo.  (Gelleri et al, 2021)

WIR: Na Suíça, a moeda WIR também foi instituída após a primeira guerra mundial e funciona até hoje. Atualmente, 25% das empresas do país aceitam pagamentos com a moeda complementar, que chega a transacionar mais de 2 bilhões de dólares por ano, representando uma parcela significativa do PIB nacional. Em 2022 a Suíça foi considerado o país com maior estabilidade econômica global, e economistas acreditam que a maior contribuição para sua estabilidade e recuperação em períodos de crise foi justamente a moeda WIR, pois em momentos de dificuldades as pequenas empresas pegavam crédito e passavam a receber mais moeda complementar. (Stodder et al, 2016)

Banco Palmas: Na década de 70, um grupo de famílias de pescadores foram despejados em uma região vazia para que houvesse o desenvolvimento do litoral nobre de Fortaleza. O Conjunto palmas acabou se tornando uma região com muita pobreza, onde os próprios moradores construíram suas casas como puderam. Até que na década de 90 algumas pessoas indignadas com a condição que viviam fizeram uma pesquisa para entender porque havia tanta pobreza. Perguntaram em cada casa o que e quanto consumiam. Até que descobriram que eles não eram pobres, mas empobreciam porque gastavam todo o dinheiro fora do bairro. Então começaram a desenvolver empreendimentos na região, e instituíram a moeda Palmas, que circulava apenas no bairro para manter o dinheiro localmente. Após a sua implementação em 1998 a região começou a evoluir, com diversos empreendimentos, infraestrutura e ações voltadas para a associação dos moradores. A velocidade de circulação da moeda era 10x mais rápida que o real, o que contribuiu para gerar mais atividade econômica local (Rosa et al, 2015). Em pesquisa realizada com os moradores, mostrou que 90% das pessoas avaliadas melhoraram a qualidade de vida, 25% conseguiram emprego, 23% abriram o próprio negócio e e 23% conseguiram trabalho com as ações do Banco Palmas. (Jeová et al, 2008)

Maricá: Em Maricá no Rio de Janeiro, 91 mil pessoas recebem auxílio mensal de 200 reais a partir de uma moeda local, a Mumbuca, totalizando 18 milhões de reais injetados na economia por mês pela prefeitura. Desde que foi implementada a moeda gerou um grande impacto no município. Maricá em 2017 foi o município com maior crescimento do PIB no Brasil, aumentou o emprego em 2,3 vezes e a renda per capita em 5,1x (Freitas et al, 2017). Maricá também conquistou um feito inédito: subiu 50 posições no Índice de Participação do Município do estado em seis anos. Passou da 53ª posição para 3º município que mais contribuiu com arrecadação de ICMS e ISS, evoluindo de 31 milhões em 2015 para 372 milhões nos 8 primeiros meses de 2021, demonstrando crescimento em plena pandemia. (SEFAZ, 2021)

Assim, está cientificamente comprovado com grandes evidências internacionais e nacionais, alta robustez de moedas locais com quase 100 anos de execução sustentável, tornando-se um mecanismo econômico de grande impacto para o desenvolvimento de trabalho e renda.

O Brasil já conta com mais de 180 moedas locais geradas por bancos comunitários assim como o Banco Palmas, com mais de 200 mil usuários em contas digitais. O Banco Central apoia as moedas locais pois entende o impacto positivo que é causado com a iniciativa (Rigo et al, 2021).

Bernard Lietaer foi da presidência do Banco Central da Bélgica, participou do projeto do Euro e foi uma das maiores referências do mundo em projeto monetário com crescimento sustentável. Segundo ele, para desenvolver um sistema financeiro sustentável é preciso que haja moedas locais complementares. (Lietaer et al, 2013).

4. Subsídios municipais: quando o poder público injeta a moeda

Além da circulação espontânea, várias cidades brasileiras estão adotando programas sociais pagos em moeda local, o que amplia o impacto econômico e fortalece o comércio regional.

Em Indiaroba são 4 programas sociais injetados via moeda social Aratu: Bolsa Família Municipal; Bolsa Auxílio Estudantil; Auxílio Natalidade; Mulher Empreendedora. No total, foram mais de 5 milhões injetados na economia em moeda local, estimulando o crescimento da cidade.

Em Itaboraí (RJ), o programa Pedra Bonita oferece um benefício mensal de R$ 150 em moeda social para 5 mil famílias em situação de vulnerabilidade.

Esses programas demonstram como a moeda social pode se tornar um mecanismo eficaz de política pública local, estimulando o consumo nos bairros e o fortalecimento das micro e pequenas empresas.

Em 2024 foram 1 bilhão de reais em transações de moedas sociais. Na maioria das cidades do Brasil, a moeda social é injetada na economia a partir de programas sociais definidas pela prefeitura. Seguem alguns exemplos a seguir:

CidadeProjetoCaracterísticas do subsídioLei Municipal
Indiaroba-SEBolsa Família Municipal130 reais por mês para 1.164 famílias, totalizando R$151.320,00 mensais injetados em moeda social Aratu.   Lei 620/2020 (Bolsa Família Municipal – autoriza criação); PL 2022 do Banco/Aratu
Indiaroba-SEBolsa Auxílio Estudantil100 reais por mês para 915 estudantes, totalizando R$ 91.500,00 reais injetados em moeda social Aratu.
Indiaroba-SEAuxílio Natalidade21 beneficiárias recebem benefício através da moeda social Aratu.
Indiaroba-SEMulher empreendedoraMicrocrédito concedido para mulheres empreendedoras através de moeda social Aratu.
Resplendor-MGMoeda pública local “Ubérrima”Criada para retenção de riqueza local; paridade 1 : 1 com o RealLei 1.206/2022 – institui a moeda pública Ubérrima.
Mato verde-MGMoeda local “Verdinha”Moeda complementar: impressos mais de 40 mil cédulas equivalentes a R$ 180.000; lançada para fomentar economia local.Lei 344/2022 (de 2 de dezembro de 2022) e Lei 372/2023 (29 de novembro de 2023) institui Verdinha.
Maricá (RJ)Bolsa/Moeda social “Mumbuca” / Programa Renda Básica de Cidadania (RBC)Benefício em moeda social Mumbuca. Em 2023 alcançava 93 mil pessoas com valor de 230 mumbucas, totalizando uma injeção de 21 milhões de reais por mês na cidade em moeda social Mumbuca.Lei 2.448/2013 (institui o programa/ Banco Mumbuca) e Lei 3.153/2022 (valor de 200 mumbucas).
Cardeal da SilvaMoeda social Mineral (estrutura para benefícios locais)Base legal cria Banco Social Cardinalense e moeda digital municipal (uso restrito local). 150 mil injetados na cidade através de programas sociais e de empreendedorismo.Lei 580/2025 – institui Banco Social e Moeda Social Mineral; portal oficial lista as normas.
São CristóvãoAuxílio alimentação dos servidores em moeda social450 reais por mês para 1250 servidores, totalizando R$562.500,00 injetados mensalmente em moeda social Bricelet.Lei nº 751, de 13 de junho de 2025.
Iguaba Grande (RJ)Bolsa/Moeda social “Caboclinho”Valor mensal inicial de R$ 120 por família, atendendo 2.717 famílias no lançamento. Benefício pago em moeda social, uso restrito ao comércio credenciado da cidade.Lei nº 1.403/2022 que instituiu a moeda social Caboclinho
Itaboraí (RJ)Bolsa/Moeda social “Pedra Bonita”Programa de transferência de renda para famílias em situação de extrema pobreza: 5.000 famílias beneficiadas; valor R$ 150/mês (150 Pedras Bonitas) para cada família, conforme fase inicial.Lei nº 2.867/2021 instituiu o programa “Moeda Social Pedra Bonita” e Banco Comunitário Popular de Itaboraí.

Essa lista continua, mostrando que a aplicação de moedas sociais cresce cada vez mais no Brasil com grande impacto na economia local.

5. O caso de Araçoiaba e a moeda Caiana

A Caiana é a moeda social de Araçoiaba. Surgiu a partir do Banco Comunitário da Cidade, uma associação sem fins lucrativos que tem como propósito a redução da pobreza através da implantação de moedas sociais.

Por enquanto, a injeção da Caiana na economia de Araçoiaba se dá através de microcrédito acessível para mulheres, onde mais de 100 mulheres receberam apoio em um mês de operação, totalizando uma injeção de mais de 30 mil reais na economia, com apoio do governo do Estado de Pernambuco para inovação e desenvolvimento local.

Entende-se que novas formas de entrada de Caiana na economia gera ganhos para a população e comerciantes locais. A injeção de benefícios pela prefeitura é uma forma que garante a permanência da moeda como um mecanismo de incentivo local e cria um ciclo virtuoso de desenvolvimento econômico.

Também estimula-se que indústrias realizem bonificações de funcionários que moram em Araçoiaba para que o dinheiro seja gasto na cidade.

Assim, através de 3 partícipes (Prefeitura, Banco Comunitário e Indústrias), a injeção contínua mensal de Caianas na cidade tem o potencial de aumentar faturamento das empresas, gerar empregos, arrecadar impostos e desenvolver novos negócios, aumentando a qualidade de vida da população e reduzindo o índice de pobreza em Araçoiaba.

A Caiana representa o início de um modelo sustentável de desenvolvimento econômico comunitário que pode ser replicado em outras cidades. A continuidade e ampliação do projeto, incluindo parcerias com prefeituras e empresas locais, têm potencial para gerar um ciclo virtuoso de prosperidade no município.

Conclusão

As moedas sociais mostram que é possível fortalecer economias locais com soluções simples, descentralizadas e transparentes.

Ao conectar o poder público, os comércios e os cidadãos em torno de um mesmo propósito de reter riqueza e gerar oportunidades dentro do próprio território, municípios de todo o Brasil estão redescobrindo o poder transformador do dinheiro que fica em casa.

Iniciativas como essas reforçam o papel das moedas sociais não apenas como instrumentos financeiros, mas como políticas públicas inovadoras de desenvolvimento local e inclusão econômica.